A Economia da República Velha

15 de April de 2009 at 4:36 am | Posted in economia, escola austríaca, programas governamentais | 2 Comments

Sou antiga e no meu tempo ainda existiam séries. No meu tempo, na quinta série, estudávamos as antigas civilizações: Ramsés, Tutancâmon e múmias em geral, daí partíamos para Grécia antiga e Roma. Na sexta, após as invasões bárbaras, era a vez de estudar de modo bimestral a Idade Média, o Renascimento, o Absolutismo e as Grandes Revoluções. Apenas na sétima série é que nos concentrávamos em história do Brasil, mais precisamente a história da república, pois o que havia para trás consistia não mais que subtópicos dos grandes temas do ano anterior. Estudando a formação da república, ganhávamos, também, as primeiras noções de políticas macroeconômicas. Certo é que antes, no império, já havíamos nos encantado com o protecionismo, nos alegrado pela tarifa Alves Branco, nos enfurecido com a Silva Ferraz e o pobre destino do Barão de Mauá – mas isso tudo era ainda resquício de mercantilismo. Política macroeconômica nos moldes modernos, só mesmo na República.

 

O que é particularmente interessante e merecedor de comentário a este respeito é que, logo no início do ano letivo, ao estudarmos a República Velha, a primeira lição que aprendíamos sobre políticas macroeconômicas é que elas são intervenções de políticos no mercado, e que, portanto, ocasionam efeitos imprevistos, normalmente contrários do que se esperava obter. Ou, no vocabulário mais apropriado que mais tarde tomei de Ludwig Von Mises – intervenções são “inúteis, supérfluas e prejudiciais”. Mas voltemos à sétima série. Na sétima série nos ensinam que tão logo empoderado Deodoro o governo iniciou uma política emissionista e inflacionária com o objetivo de aumentar o crédito e incentivar o desenvolvimento da economia brasileira para além da tradição agrícola. E a grande lição que aprendemos é que a expansão de crédito para fins desenvolvimentistas é uma política que não funciona. Ou alguém se lembra de algum professor, de algum livro-texto sequer, olhar com bondade para o ato do então ministro Rui Barbosa – o homem mais inteligente do Brasil – ao promover o encilhamento? Não. Na sétima série todos nós entendíamos perfeitamente que expandir o crédito causa malinvestment-inflação-bolha-crise-recessão – e não desenvolvimento econômico. Na sétima série éramos todos economistas austríacos.

 

Outra grande lição econômica da República Velha nos vinha do Convênio de Taubaté. Na sétima série, atentos aos incentivos em jogo para os atores políticos e econômicos, percebíamos claramente porque o bailout é outra política que não funciona. O Brasil estava em crise, os cafeicultores à beira da falência, e a nação cobrava medidas governamentais – o governo atende, decidindo manter artificialmente os preços, comprando os ativos podres da época: as sacas de café. Na sétima série a gente já conseguia antever que tudo o que uma política dessas podia resultar era a continuidade dos malinvestments e o endividamento do estado. E não é que foi isso mesmo? Está lá, em todos os livros de história da sétima série: tão grande foi a crise posterior ao bailout do café que o ciclo chegou ao fim – o fim da República Velha.

 

Foi o fim também para as nossas grandes lições de economia. Vieram Vargas e o Estado Novo, e com Vargas e o Estado Novo mudaram as leis econômicas para o resto das nossas aulas de história. Após Vargas há um giro epistemológico quase inexplicável. Depois dele, os livros e os professores ensinam que bom mesmo é o desenvolvimentismo, bom mesmo são as empresas estatais, as expansões, os incentivos, as intervenções. No início, estranhamos. Mas pouco tempo depois nós alunos da sétima nos acostumávamos. Afinal de contas, as leis econômicas da República Velha não poderiam servir a um Estado Novo. Especialmente um Estado Novo que nasce junto com John Maynard Keynes. 

2 Comments »

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  1. […] liberalismo, William Summerhill trackback Luciana se lembra das aulas de história na escola, não sem um toque atual. Mas, será que lhe ensinaram direitinho? Eu sugiro que minha ex-aluna tenha contato com os […]

  2. muito bom


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